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terça-feira, maio 11, 2021

Após acordo, placa que mostrava centro de tortura durante a Ditadura Militar em Porto Alegre será recolocada

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Imóvel conhecido como ‘Dopinho’ foi alugado por militares e serviu como centro clandestino de repressão. Placa foi coberta por cimento este ano. Inquérito do Ministério Público corre em sigilo. Placa foi retirada e espaço foi concretado na frente do local onde funcionou o “Dopinho”, em Porto Alegre
Agência RBS/André Ávila
Após acordo com o Ministério Público do RS, uma placa removida da calçada de um imóvel alugado pelos militares para funcionar como centro clandestino de repressão durante a Ditadura Militar, em Porto Alegre, terá que ser recolocada.
Os proprietários do imóvel, que ficou conhecido como “Dopinho” [em alusão ao Departamento de Ordem Política e Social — Dops], haviam removido a peça e concretado o pedaço da calçada onde ela havia sido instalada, em 2015. A audiência com o MP foi na última quinta-feira (29), e foram concedidos 100 dias de prazo para a recolocação.
Segundo o MP-RS, será produzida uma nova placa, com os mesmos dizeres. Leia o texto completo da placa mais abaixo.
O acordo foi firmado pela promotora do Meio Ambiente de Porto Alegre, Ana Marchesan. Segundo ela, os proprietários alegaram que um idoso quase se machucou ao passar pelo local, devido a avarias na placa. O imóvel, explica a promotora, é inventariado, e qualquer modificação na placa deveria ter sido comunicada previamente.
Um inquérito foi aberto após a constatação da retirada da placa, em junho deste ano, pelo Movimento de Justiça e Direitos Humanos. A pedido dos proprietários do imóvel, a investigação está sob sigilo.
Peça marca local onde torturas e prisões aconteceram entre 1964 e 1966, no início da Ditadura Militar
Reprodução/Grupo por Verdade e Justiça
Texto da placa
“Primeiro centro clandestino de detenção do Cone Sul. No numero 600 da rua Santo Antônio, funcionou estrutura paramilitar para sequestro, interrogatório, tortura e extermínio de pessoas ordenados pelo regime militar de 1964. O major Luiz Carlos Menna Barreto comandou o terror praticado por 28 militares, policiais, agentes do Dops e civis, até que apareceu no Guaíba o corpo com as mãos amarradas de Manoel Raimundo Soares, que suportou 152 dias de tortura, inclusive no casarão. Em 1966, com paredes manchadas de sangue, o Dopinho foi desativado e os crimes ali cometidos ficaram impunes.”
Marcas da Memória
A placa removida marca a existência do considerado primeiro centro clandestino de repressão, instaurado pela Ditadura Militar logo após abril de 1964. O imóvel, na Rua Santo Antônio, bairro Floresta, foi alugado e, depois, devolvido aos proprietários.
O local foi listado pelo projeto Marcas da Memória, realizado pelo Movimento de Justiça e Cidadania juntamente com a Prefeitura de Porto Alegre.
Outros endereços que registraram ações de repressão, como o Palácio da Polícia e a Cadeia Pública de Porto Alegre, além de quartéis e prisões pelo estado, receberam as placas. A placa do “Dopinho”, no entanto, é a única em um local de propriedade privada.
“O ‘Dopinho’ é central porque demonstra que, desde o primeiro momento, o regime esteve organizado a partir do terrorismo de estado”, explica a professora de História da PUC-RS, Tatyana Maia. “Vai ser o primeiro centro clandestino na América do Sul, onde vários tipos de tortura aconteceram. Vai inaugurar um modelo de atuação dessa polícia clandestina”, complementa.
A professora acredita que a remoção da placa esteja relacionada a um processo de negacionismo dos crimes cometidos pelos militares durante o período.
“Na tentativa de negar que a tortura foi sistemática, que os desaparecimentos e perseguições marcam período muito violento. Essa placa não é dos familiares, dos presos ou dos grupos de Direitos Humanos. Ela responde à demanda societária maior que é a defesa dos direitos humanos”, defende Tatyana.
O caso das mãos amarradas
O ‘Dopinho’ foi fechado em setembro de 1966 após a descoberta do assassinato do sargento Manoel Raimundo Soares, que ficou conhecido como “caso das mãos amarradas”, como conta Jair Krischke, fundador e presidente do Movimento por Justiça e Direitos Humanos.
“Ele se opôs à ditadura. Fazia parte de um grupo que veio a Porto Alegre para iniciar um movimento da resistência. Foi preso em 1966 e, em agosto, desaparece. O corpo aparece boiando no Rio Jacuí”, narra Krischke.
O governo estadual da época nomeou uma comissão para investigar a morte de Soares. O inquérito levou à descoberta do ‘Dopinho’, onde majores, delegados de polícia e pessoas que se infiltraram no movimento estudantil atuavam em favor da Ditadura Militar.
“Não se sabia até então o que tinha lá. E aí ficou desvendado que ali tinha funcionado algo clandestino na repressão”, comenta.
A criação de centros clandestinos como o ‘Dopinho’ se disseminou por outras capitais e também foi adotada por ditaduras da América Latina, diz Krischke. A inspiração para o sistema veio das táticas de guerra francesa, usando a tortura para obter informações e derrotar inimigos.
Jair diz que a família resistiu à instalação da placa, em 2015. Ele não acredita na hipótese de retirada devido ao trânsito no local. “Criaram essa história pra justificar o injustificável”, afirma.
Confira os destaques do G1 RS:

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