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Ou: decidindo durante a pandemia

Não admira que diferentes países tenham optado por enfrentar a pandemia à sua maneira, considerando especificidades econômicas, demográficas, sociais e culturais

Qual cidade, estado ou país tomou as melhores medidas durante a pandemia? Espere dois anos para saber, pelo menos. Até lá, com todo mundo vacinado e a vida voltando ao normal, pesquisadores terão a oportunidade de levantar dados de contágios, mortes e (de)crescimento econômico e cruzá-los com as decisões em cada local, para então emitir um veredito. Antes disso, é só especulação.

O Covid-19 colocou governos em ritmo e espírito de startup, obrigando-os a agir com base em dados parciais e sob a pressão do tempo e da opinião pública. Ou, como bem definiu o biólogo Átila Iamarino, operando em meio a um verdadeiro experimento social de escala mundial.

Referências para tomar decisões impopulares e difíceis, como fechamento de estabelecimentos e isolamento social, até existiam, mas eram poucas e distantes no tempo. Para tratar a doença, então, foi um verdadeiro learning by doing, em que os médicos aprenderam na prática o que de fato funcionava para evitar intubações e mortes.

Não admira que diferentes países tenham optado por enfrentar a pandemia à sua maneira, considerando especificidades econômicas, demográficas, sociais e culturais. Aliás, a intersecção de todas essas disciplinas com a medicina ficou mais do que evidente pelos exemplos de Japão, Suécia, América Latina, China e Itália. No mais, até quem apareceu como case de sucesso sofreu reveses em algum momento , e o contrário também: Manaus, a cidade brasileira em que faltaram covas para enterrar os mortos da Covid-19, foi a primeira a retomar as aulas e a ter atingido, possivelmente, a almejada imunidade de rebanho – se é que ela existe.

Mesmo a principal referência de gestão durante esta crise, a Alemanha, pode ter sido bafejada pela sorte, pois, a despeito de uma infraestrutura de saúde muito boa, “se houvesse tantos doentes graves de Covid-19 como no norte da Itália, teríamos tido os leitos, de fato, mas não o pessoal para cuidar dos pacientes”, afirmou uma médica alemã (Le Monde Diplomatique Brasil setembro de 2020, p. 30).

As poucas certezas, até aqui, vão da trivialidade (países superavitários têm melhores condições de se defender em momentos como este e este também) a um compreensível alarmismo.

Será que este verdadeiro intensivão em gestão sob situações ambíguas deixará algum legado?

Assim como a hiperinflação estimulou a criatividade e a capacidade de adaptação dos executivos brasileiros nos anos 1980 e 1990, é possível que tenhamos no futuro uma geração de profissionais e organizações mais preparados para responder a eventos inesperados, tanto em empresas como em governos. Como bem disse um gestor, “o músculo da gestão de crises foi treinado”, o que facilita seu acionamento novamente daqui a algum tempo, quando for necessário.

Mas quem ousa afirmar muito mais do que isso?

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