O maior peso a ser carregado

Terminei essa semana a leitura de “Curar o ressentimento: o mal da amargura individual, coletiva e política” (Bazar do tempo, 2023), da psicanalista e filósofa Cynthia Fleury. Leitura de impacto, que a autora dividiu com os movimentos “O Amargo”, “O Fascismo” e “O Mar”. Já  o título do livro, de modo geral, já dá uma dica do que o leitor irá encontrar. Fleury se propõe a pensar se há uma via de superação do ressentimento, afeto muito marcante de nosso tempo, causador de sofrimento e conflitos.

No capítulo sobre o amargo, a autora segue as pistas desse dado comum ao ressentimento: o sabor da amargura. Fato que se dá nesse contato com a realidade, a perda das ilusões, a separação subjetiva, que resultam em uma melancolia perene diante da vida, podendo descambar para o ódio. O texto é uma descrição dessa amargura e ao mesmo tempo a busca por um entendimento. O amargo é colocado a partir de um ponto de vista subjetivo, mas também político.

Sob um viés individual, a autora divide as pessoas a partir desse princípio, entre aqueles que ruminam e os que superam o ressentimento. Ruminar é um termo central para Fleury. “A ruminação é, ela também, a de outra ruminação, no sentido de que se trata, de cara, de reviver uma ‘re-ação’ emocional, que de início poderia ser dirigida a alguém em particular”. Dessa forma, o amargo alienado não age, é falsa sua espontaneidade, fruto na verdade da raiva contida.

Essa compreensão é fundamental, pois o entendimento sobre liberdade em nossa cultura se turva. Em que momentos, de fato, nossas ações são verdadeiramente governadas pelo princípio da grandeza de espírito? Debate complexo, reconhecido pela autora, que vê no discernimento uma das atitudes intelectuais mais difíceis na vida social, principalmente para o ressentido, que tende a compreender mal tudo que se propõe a pensar.

Ao contrário, para Fleury, há o espírito “ativo”, que se lança, como vê Montaigne, no desafio virtuoso de se responsabilizar diante do ressentimento. “Não acalentar seus vícios, escreve, retomando Juvenal, demonstra um esforço sobre si, a obrigação de conter aquilo que transborda, de tomar para si a responsabilidade”, escreve a autora. A negação da negação, a percepção de que não se pode fugir do posicionamento subjetivo diante da vida.

Essa expressão a respeito da subjetividade também é importante. Fleury associa constantemente o tema do ressentimento com as questões do humanismo. Um desdobramento evidente para ela de uma sociedade que se organiza em torno do ressentimento é a constante coisificação do mundo e das pessoas, que leva a um comportamento reativo diante do ideal de felicidade.

Para ela, a perda do horizonte humanista é causadora do ressentimento. Mas também, como psicanalista, Fleury problematiza a relação desse humano com suas pulsões. Esse posicionamento subjetivo demanda também autodomínio e sublimação, não sendo a pulsão desgovernada uma verdade absoluta. Aqui, surge também o tema da libido, no que diz respeito à energia psíquica que, uma vez de posse do sujeito, dará sustento às ações pessoais de cada um.

E esse indivíduo está na sociedade. Fleury explana como essa organização individual afeta o todo. O fascismo surgiria não só dos fenômenos macroestruturais, mas também dessa vida diária. Falando a partir de Adorno, dos ódios de grupo e da violência a qual as pessoas se sentem autorizadas; e, em Reich, dos desejos reprimidos e das más relações com o princípio da sexualidade.

A partir de Fanon, Fleury traz também o tema da colonização e sua opressão intrínseca. A dominação dos povos produz efeitos não só sobre um território, mas também sobre a alma dos colonizados, tornando a colonização do ser, em um âmbito metafísico, sem desconhecer os aspectos político-econômicos, a mais perigosa delas. É nessa reflexão entra o particular e o universal, memória e esquecimento, que Fleury traz o tema da violência colonial.

Diante desse quadro, Fleury se põe a refletir sobre como levar a vida, no tempo, no espaço, na linguagem, a partir da constatação do ressentimento. Há uma linha tênue entre a tomada de posição e uma espécie de aceitação trágica, e por que não cômica, do mundo. A amargura vira mar. O mar, última etapa do pensamento da autora, é esse lugar da conexão com a imensidão possível. Puro devir. Lugar de navegação, mas também de naufrágio. Onde se vive a amargura com um certo sabor adocicado de um mundo agora mais denso e aberto.

Referência

FLEURY, Cynthia. Curar o ressentimento: o mal da amargura individual, coletiva e política. 1ª ed. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2023.

O post O peso mais pesado apareceu primeiro em Agora RS.

By Canoas 24 Horas

Confira